"Vou ler" ou "irei ler" este artigo?

8 Mar 2018

 

Lemos cotidianamente, como se nada fossem, nos mais diversos jornais e revistas, frases como estas:

 

  • “O que seu corpo irá fazer nos próximos 30 segundos”

  • “Petrobras irá desenvolver tecnologia inédita de soldagem”

  • “Medley confirma que não irá patrocinar Barrichello em 2018”

 

nas quais o jornalista, satisfeito consigo mesmo, acreditou estar fazendo um bom trabalho em “escrever bonito”.

 

Nada mais longe da verdade...

 

A gramática normativa prescreve duas formas de construir o futuro do presente, uma simples e outra composta:

 

  • Maria e eu viajaremos em outubro.

  • Maria e eu vamos viajar em outubro.

 

A primeira, viajaremos, serve “para expressar que determinada ação, fato ou estado sucederão efetivamente”; “para expressar probabilidade, dúvida ou suposição com respeito a ação, fato ou estado atuais”; ou “para substituir o modo imperativo”.

A segunda, vamos viajar, usa-se “para exprimir o firme propósito de executar a ação, ou a certeza de que ela será realizada num futuro próximo”.

Tal distinção, todos sabemos, muitas vezes não ocorre na prática, mas ninguém diz "vai ser que" em vez de "será que" ou "não vais matar", em vez de "não matarás".

 

Como vemos, por enquanto nada do tal irá fazer.

 

Revisitando nossos clássicos, lemos passagens como:

 

  • “Dom Casmurro, domingo vou jantar com você.”

  • “Sim, Nero, Augusto, Massinissa, e tu, grande César, que me incitas a fazer os meus comentários, agradecer-vos o conselho, e vou deitar ao papel as reminiscências que me vierem vindo.”

  • “Meu pai diz que me vai encerrar num convento, por tua causa.”

  • “Não vão estas palavras acrescentar a tua pena.”

 

Novamente, nem sinal do irá fazer.

 

Que será, então, que leva tanta gente a usar essa construção, que não pertence à nossa tradição nem encontra respaldo nas nossas gramáticas? Ora, nada mais do que o fenômeno da hipercorreção, causado pela insegurança linguística na tentativa de “escrever bonito”.

 

Ao querer fugir da construção verbal (farei), por julgá-la formal demais (muitas vezes não o é), e da locução verbal (vou fazer), por julgá-la informal demais (como se tudo o que é comum na fala tivesse de ser evitado), o escritor pula da panela e cai no fogo, e refugia-se numa construção que, ao menos para os meus olhos, é artificial, forçada e meio capenga.

 

Será influência do telemarketing?

 

Para reforçar a inapropriação desse uso, pensemos no futuro composto:

 

  • Em outubro já teremos viajado para Londres.

  • Em outubro já vamos ter viajado para Londres.

  • Em outubro já iremos ter viajado para Londres.

 

Horrível a terceira opção, não?

 

Não sei se hoje em dia podemos tachar a locução verbal irei fazer de errada, mas não podemos ter medo de usar, com toda a propriedade do português mais castiço, o bom e velho vou fazer. É o que eu faço e recomendo a quem ainda acha que escrever bem é escrever empolado.

 

Coragem!

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