Chega de atrapalhar o seu leitor!

16 Feb 2018

 

Como todo bom aluno que se preze, você já se esqueceu de toda a sintaxe que aprendeu na escola, e provavelmente já nem se lembra do significado dessa palavra. Mas, como todo bom aluno que se preze, você nunca se esqueceu do trauma de ter visto alguns esquemas como este [1]:

 

 

Mas não se preocupe! Não vamos falar de análise sintática neste artigo, tampouco vamos querer analisar esse diagrama. Eu só quero que você perceba como a coisa pode ficar complexa em frases mais longas [2]:

 

 

Assustador, não? Acontece que, toda vez que lemos ou ouvimos uma frase, o nosso cérebro faz uma análise muito parecida, colocando cada palavra em sua respectiva caixa: temos a caixa dos substantivos, dos artigos, das preposições; a caixa dos sujeitos, dos adjuntos, dos objetos, e assim por diante.

 

É claro que não classificamos cada um dos termos usados, nem precisamos conhecer todos esses nomes. Mas a nossa mente entende que as palavras cumprem certas funções e se relacionam entre si seguindo certos padrões. Frases como “Discuti menina bonita” ou “Bem bolo ontem cozinhei” não fazem sentido algum, e isso ocorre porque o nosso cérebro não consegue encontrar as caixas corretas para organizar as ideias que cada uma dessas palavras quer comunicar.

 

Eu sei que os exemplos que dei são simples e igualmente absurdos, e também sei que todo mundo que aprendeu a falar conhece a gramática da própria língua. Mas os diagramas acima ilustram os dois desafios que o nosso cérebro enfrenta ao escrever:

 

  1. desbravar o emaranhado das nossas ideias para criar uma trilha linear e segura que nos permita entendê-lo;

  2. usar o pouco tempo e a pouca memória disponíveis para abarcar de uma só vez todas as possíveis relações entre cada termo.

 

É daí que nascem erros como estes (nenhum deles inventado):

 

  • A estrada que conduzia às cidades do interior estão cheias de carros.

  • A juventude, que todos os professores dizem serem a única esperança da humanidade, é muito influenciada por tendências radicais.

  • Os melhores presentes são caros. Mas não caro pois custou dinheiro para comprar, mas sim caros pois levou tempo para pesquisar ou produzir.

  • O que leva as pessoas a enfrentarem esses desafios? Certamente não é o salário ou os benefícios. E certamente não é pelas condições paradisíacas do trabalho.

  • Empreendedores precisam se apoiar. Muitos falham por se isolar e não trocarem experiências e ferramentas com quem já viveu aquela batalha antes.

  • O marketing de algumas pessoas ainda procuram atingir esses caras.

 

São erros que os autores jamais cometeriam se escrevessem com calma, revisando tudo, ou se tivessem a memória “sintática” um pouco mais exercitada.

 

Outro desafio encontrado por quem escreve é ter de fazer duas coisas ao mesmo tempo:

 

  1. comunicar quem faz o que a quem (o conteúdo);

  2. determinar a sequência do que é processado antes e depois na mente do leitor (a sequência e a forma).

 

A mente humana só consegue fazer algumas poucas coisas ao mesmo tempo, e a ordem em que as informações chegam afeta o modo como são processadas.

 

E é este o grande segredo da escrita! Escrever bem não significa apenas seguir regras tão abstratas quanto arbitrárias ou perder tempo com enfeites gramaticais que mal serão notados. A boa escrita (e volto a fazer uma lista de dois itens) tem duas enormes vantagens:

 

  1. conduzir o olhar do leitor para onde você quer, garantindo que o pensamento dele siga a trilha traçada por você;

  2. ajudar o leitor a encaixar cada coisa em seu lugar, tirando os espinhos que bloqueiam essa trilha e garantindo que ele não precise tirar sua atenção do destino que você escolheu.

 

Minha intenção é ajudar você a percorrer essa trilha, ou melhor, a ver a trilha que está escondida no labirinto das possibilidades da escrita. Nos próximos artigos, vou expor cada um dos espinhos que aparecem na nossa frente, e vou mostrar a melhor forma de cortá-los, para que o leitor desprevenido não se distraia com o que não deve.

 

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Referências:

[1] C. Cunha; L. Cintra, Gramática do português contemporâneo. 6. ed. Rio de Janeiro: Lexicon, 2013, p. 138.

[2] http://morfossintaxe2012.blogspot.com.br/

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