Na língua portuguesa, quem discrimina é a mulher!

9 Mar 2018

 

No atual afã em busca do igualitarismo, vemos por todo lado as mais desastradas tentativas de ser “inclusivo” e a todo custo fugir do rótulo de machistas, misóginos e coisas que tais. Assim, vemos monstrengos ilegíveis (amigxs, alun@s), que incluem a todos indiscriminadamente, menos ao pobre do leitor, que tropeça enquanto lê e sofre muito se a leitura for em voz alta.

 

Não há coisa mais chata do que ler frases como: “Você está insatisfeito/a com o seu/sua parceiro/a?”. Não é ofensivo ser simples e objetivo, e dizer “Você está insatisfeito com o seu parceiro?”. O leitor não é burro, e sabe que a frase vale também para ele (ou ela...). Está na moda também o alongar-se na enumeração, e assim vemos trambolhos assim: “Os brasileiros e as brasileiras vão votar nos candidatos e candidatas que forem mais adequados/as”. Por que não listar logo todos os brasileiros e todos os candidatos, para garantir que ninguém se sinta de fora?

 

Sem querer entrar no tema da inclusão e do papel das mulheres na sociedade, gostaria de tentar defender a honra da nossa pobre língua, que de repente passou a ser tachada de patriarcal, machista e preconceituosa. Mas vamos ver que não é assim!

 

Acontece que o português não tem formas neutras, e quem acaba assumindo esse papel é o gênero masculino. Pode-se dizer que a forma masculina é na verdade uma forma neutra, e por isso não recebe nenhuma marcação específica, podendo terminar em qualquer vogal  (artista, estudante, guarani, aluno, urubu), embora por questões etimológicas e históricas que nada têm que ver com o machismo tenha prevalecido a terminação em -o.


É por isso que o dicionário mostra somente o verbete amigo em vez de amigo, amiga, amigos, amigas, amigão, amigões, amigona, amigonas, amiguinho, amiguinhos, amiguinha e amiguinhas (ufa!). Basta uma forma -- a neutra, sem marcações -- para que o falante não complexado entenda o significado da palavra desconhecida e consiga por conta própria fazer a flexão que melhor lhe parecer.

 

Num processo muito natural das línguas latinas, a forma não marcada vale pela marcada, e assim montamos as seguintes construções, sem medo de excluir ninguém:

 

  • “Os dias estavam chuvosos”, incluindo dia e noite

  • “Seus pais morreram jovens”, incluindo pai e mãe

  • “Meus amigos são legais”, incluindo amigos e amigas

  • “Os estudantes foram bem na prova”, incluindo os estudantes e as estudantes

  • “Hitler suicida-se após o término da guerra”, onde o presente (não marcado) vale pelo passado (marcado)

  • “Amanhã vou à praia”, onde o presente (não marcado) vale pelo futuro (marcado)


Quem discrimina é a forma feminina, pois deixa os homens de fora, assim como dizer mães exclui os pais, e dizer noites exclui os dias. Outro dia li um anúncio que dizia: “Se estiver procurando revisora, preparadora, editora assistente, redatora, por favor, entre em contato ou me indique para alguém”. Muito estranho, não? Imagino uma mulher desesperada por clientes e por afirmar sua feminilidade, como se algum idiota pudesse pensar que ela mesma estava fora do anúncio caso escrevesse revisores, assim, no masculino.

 

Há formas melhores de garantir que as mulheres recebam o mesmo valor que os homens, mas precisamos parar de procurar machismos como quem procura chifre em cabeça de cavalo (e de éguas também!).

 

Parabéns a todas vocês, mulheres! E viva a língua portuguesa, inculta e bela, a última flor do lácio, no feminino mesmo, ainda que seja falada livremente por todos nós, brasileiros e brasileiras.

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