#2 Como repetir corretamente as preposições

5 Mar 2018

O artigo de hoje pretende ser um aprofundamento do anterior, que tratava do paralelismo. Um pouco árido, talvez, mas extremamente útil para garantir a precisão do que você quer comunicar ao seu leitor.

 

Hoje damos a palavra ao nosso mestre Napoleão Mendes de Almeida [1], que em 8 dicas nos ensina como repetir as preposições numa frase, garantindo que evitemos toda e qualquer ambiguidade. Novamente, a atenção deve recair nos abundantes exemplos dados, que dizem muito mais do que todas as explicações.

 

 

1) Vários nomes, mas um só regime*:

 

Suponhamos uma luta entre um indivíduo, João, e dois outros, Pedro e Paulo. Diremos: “João lutou contra Pedro e Paulo” ou: “João lutou contra Pedro e contra Paulo”?

 

A segunda construção tem significado diferente da primeira, pois denota duas lutas separadas: João lutou primeiro contra um, depois contra outro. Se a luta foi uma só, a preposição não se repete: “João lutou contra Pedro e Paulo”.

 

Perigo de ambiguidade como esse poderá existir em outras frases semelhantes: “Aos poetas e pintores (a pessoas a um tempo poetas e pintores), “Aos poetas e aos pintores” (aos que são poetas e aos que são pintores).

 

Não cabe, em tais casos, verificar se as palavras, regidas pela preposição, são ou não antônimas; importa, isto sim, observar se elas constituem um só regime conjunto, contemporâneo, ou, ao contrário, regimes diferentes, isolados. Quando se diz: “Viaja por terra e por mar”, diz-se bem, e não seria possível de outra forma dizer; os elementos não constituem complemento conjunto de viajar; a repetição da preposição impõe-se. Quando — considerando-se o caso contrário — diz alguém: “Destruir a ferro e fogo”, procede corretamente em não repetindo a preposição, uma vez que as palavras ferro e fogo indicam elementos contemporâneos de destruição.

 

A fita do Gordo e o Magro” — “Um grupo de cinco rapazes e duas moças” — constituem outros exemplos de regime comum, uno, da preposição. Outros exemplos em que a preposição rege vários nomes que constituem um só regime:

 

  • Durante o mês passado e parte do presente;

  • Homem de cabelos brancos e bigode grisalho;

  • Analogia de forma e significação;

  • Campo juncado de mortos e feridos;

  • Ante a violência do choque e a desordem das vanguardas;

  • Casa de pau e barro;

  • Comida com sal e pimenta;

  • Secretaria de Educação e Saúde Pública;

  • Instituto de Aposentadoria e Pensões;

  • Tecido de algodão e lã;

  • Flexão verbal de modo, tempo, pessoa e número;

  • Viver a pão e água;

  • As letras dividem-se em vogais e consoantes;

  • Os metaplasmos podem processar-se por adição, subtração e substituição;

  • Dividem-se em interjeições propriamente ditas e locuções interjetivas.

 

Não há necessidade de repetir a preposição: o regime é um só.

 

Se as palavras que vêm após a preposição não constituem regime uno, contemporâneo, a repetição se impõe:

 

  • Nomes derivados de substantivos e de verbos;

  • Vivem na cidade e no campo;

  • Ostenta seu poder no céu, no ar, no mar e na terra;

  • Orgulho da ciência e da indústria;

  • Honra para mim e para todos;

  • Flexão subordinada às regras de Soares Barbosa e à de Frederico Diez.

 

2) Palavras que têm mais ou menos o mesmo sentido:

 

Se os complementos são palavras que têm mais ou menos o mesmo sentido, não se deve repetir a preposição:

 

  • Viver na moleza e ociosidade;

  • Encantou-nos com sua bondade e doçura;

  • Deve a vida à clemência e magnanimidade do vencedor.

 

Razão ainda maior há para não repetir a preposição quando o segundo elemento é explicativo ou equivalente do primeiro:

 

  • Corresponde ao duplo L ou L molhado;

  • Compostos de duas ou mais palavras;

  • Seguido de e ou i;

  • Indica um conjunto de seres ou objetos;

  • Conhecem-se pelo sufixo ou terminação.

 

Em construções como essas, não há verdadeiramente dois regimes, senão um só.

 

3) Regimes das preposições a e por, seguidas de artigo definido:

 

Deve-se repetir a preposição, quando repetido vem o artigo.

 

  • Opor-se aos projetos e aos desígnios de alguém (jamais "aos projetos e os desígnios");

  • Caracteriza-se pelo talento e pelos relevantes méritos (jamais "pelo talento e os relevantes méritos");

  • Flagelado pela peste e pelos estragos;

  • Sócrates distinguiu-se pela modéstia e pela sabedoria;

  • Choravam pelo pai e pela mãe;

  • Marasmado pelo álcool e pela nicotina;

  • Morrer pela lei, pelo rei, pela pátria;

  • Escarnecido pelo monarca e pelos ministros.

 

Se não se repetir o artigo, poder-se-á não repetir a preposição, tendo-se sempre em mente as normas 1 e 2.

 

  • Opor-se aos projetos e desígnios de alguém;

  • Flagelado pela peste e estragos.

 

O mesmo poderá ser dito com relação a outras preposições:

 

  • Nas formas rizotônicas e derivadas;

  • Observações sobre a pronúncia e grafia das palavras (ou "sobre a pronúncia e sobre a grafia; jamais "sobre a pronúncia e a grafia").

 

É galicismo* ou castelhanismo* [ou italianismo] pôr antes do segundo nome o artigo sem a preposição. Não devemos imitar exemplos como estes:

 

  • O Dante é imortal, mas o seu poema é inspirado pelo misticismo e a vingança;

  • Estas palavras quase severas do mancebo foram seguidas de um longo silêncio, apenas interrompido pelo tinir dos pratos e o rumor dos dentes;

  • Mas as argolas do caixão foram seguradas pelos cinco familiares e o Benjamim.

 

4) Regimes antecedidos de possessivos:

 

Mutatis mutandis*, este caso é igual ao anterior, ou seja, repete-se apenas a preposição quando repetido vem o possessivo:

 

  • Disponha de minha casa e de minha bolsa;

  • Com meu pai e com minha mãe;

  • Dê o resto ao meu empregado e ao meu guia;

  • Com saudades do seu vinho e dos seus charutos.

 

Poder-se-á não repetir o possessivo — e então nem a preposição virá repetida — quando aplicáveis as normas 1 e 2: "Segundo suas lucubrações e queixumes".

 

5) Regime seguido de aposto:

 

Quando não se faz necessária nem para ênfase nem para clareza, não se repete a preposição antes do aposto:

 

  • Nascido numa bela cidade, Campinas;

  • Proveniente da mais bela das capitais, Rio de Janeiro;

  • Chegaram ao extremo do que mais prezavam, as próprias vidas;

  • A palavra teoria é originária de um único étimo, o grego theoria.

 

6) Regimes dispostos em grupos de dois ou mais elementos:

 

Pode-se repetir a preposição antes de cada grupo:

 

  • Acompanhado de professores e advogados, de físicos e químicos, de médicos e dentistas;

  • As letras classificam-se em maiúsculas e minúsculas, em vogais e consoantes.

 

7) Regime seguido de palavra ou locução explanatória:

 

Repete-se a preposição:

 

  • No mês de janeiro, ou melhor, de fevereiro;

  • A propriedade do advérbio, digo, do adjetivo;

  • Refiro-me à filha, digo, à sobrinha do mordomo;

  • Foi com o diretor, quero dizer, com o reitor.

 

8) Enquadra-se no caso anterior este:

 

"...causando prejuízos em diversas culturas, sobretudo no café", mas assim não estava no jornal, senão "...causando prejuízos em diversas culturas, sobretudo o café". É distração, é falta de pensar no que escreve não repetir aí a preposição em: "sobretudo prejuízos no café". Café é adjunto adnominal de prejuízos, que por desnecessidade não se repete: causou prejuízo em diversas culturas, sobretudo no café, principalmente no café, especialmente no café.

 

Glossário:

 

Regime: O mesmo que complemento.

 

Galicismo: Palavra ou expressão do francês adotada por outra língua, com ou sem adaptações.

 

Castelhanismo: Palavra ou expressão do espanhol usada em outra língua; espanholismo.

 

Mutatis mutandis: Locução latina que significa "fazendo-se as mudanças devidas".

 

 

Referências:

 

[1] Napoleão Mendes de Almeida, Dicionário de questões vernáculas. São Paulo: LCTE, 1994, pp. 486-7.

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