#1 O paralelismo

26 Feb 2018

 

Concluí o primeiro artigo desta série dizendo que, no labirinto de possibilidades da escrita, “vou expor cada um dos espinhos que aparecem na nossa frente, e vou mostrar a melhor forma de cortá-los, para que o leitor desprevenido não se distraia com o que não deve”. Você consegue ver os espinhos das seguintes frases?

 

  • Ele disse que as cirurgias e a terapia o tinham ajudado não só a recuperar-se da queda, mas também livrado da dor nas costas que o debilitava. [1]

 

  • Amantes dos antigos bolachões penam não só para encontrar os discos, que ficam a cada dia mais raros. A dificuldade aparece também na hora de trocar a agulha ou de levar o toca-discos para o conserto. [2]

 

  • Não se trata de defender mais intervenção do Estado na economia ou que o Estado volte a produzir aço em grande quantidade. [2]

 

O espinho de hoje, desconhecido de muitos mas presente nos exemplos acima, é a falta de paralelismo, fonte de incontáveis problemas de escrita que quase sempre passam despercebidos. Para entendê-lo, vamos retomar a imagem dos diagramas de análise sintática que aprendemos a odiar na escola. Ou melhor, vamos retomar a imagem do cérebro do leitor trabalhando para encaixar todos os termos da frase num diagrama que faça algum sentido.

 

Esse diagrama, cheio de ramos, fica na nossa memória por alguns segundos, servindo de modelo para a compreensão da próxima frase (e do próximo diagrama). Em outras palavras, após ler uma frase, esperamos que a continuação seja coerente e se encaixe harmonicamente no que acabamos de ler. Agora, se o que vem depois segue o mesmo modelo do que veio antes, tanto melhor, conseguimos absorver toda a estrutura (e, principalmente, todo o conteúdo) sem nenhum esforço. E é justamente isto o que queremos, não? Que o nosso leitor gaste suas energias apenas no conteúdo, nunca na forma!

 

Os exemplos a seguir devem esclarecer o que estou tentando dizer. Leia como as frases estavam e como ficaram após uma intervenção, e compare os termos destacados, que precisam ficar paralelos entre si para deixar a leitura mais confortável. Comecemos a poda!

 

  • Ele disse que as cirurgias e a terapia o tinham ajudado não só a recuperar-se da queda, mas também livrado do da dor nas costas que o debilitava.

  • Ele disse que as cirurgias e a terapia não só o tinham ajudado a recuperar-se da queda, mas também livrado do da dor nas costas que o debilitava.

 

  • Com o comparecimento do Sr. Ruto diante da corte, começou um processo que poderia influenciar não só o futuro do Quênia, mas também do mal-faladíssimo tribunal. [1]

  • Com o comparecimento do Sr. Ruto diante da corte, começou um processo que poderia influenciar o futuro não só do Quênia, mas também do mal-faladíssimo tribunal.

 

  • Recém-nascidos exigem muita atenção e que, portanto, deixemos de trabalhar por alguns meses.

  • Recém-nascidos exigem muita atenção e, portanto, a interrupção do trabalho por alguns meses.

  • Recém-nascidos exigem  que lhes dediquemos muita atenção e, portanto, deixemos de trabalhar por alguns meses.

 

  • Para minha ex-namorada, homem tem de ser gentil, culto e não fumar. [2]

  • Para minha ex-namorada, homem tem de ser gentil, culto e não fumante.

 

  • O presidente sentia-se acuado pelas denúncias de corrupção e o crescimento na Constituinte da pressão contra o seu mandato. [2]

  • O presidente sentia-se acuado pelas denúncias de corrupção e pelo crescimento na Constituinte da pressão contra o seu mandato.

 

 

Neste momento você deve estar-se questionando: "Mas as frases acimas não estavam erradas!". E você tem razão, não o estavam. Mas puderam ser melhoradas, e isso é muito importante!

 

A ideia por trás do conceito de paralelismo é simples: a leitura torna-se mais fácil quando o cérebro encontra termos similares ocupando a mesma função, quando podemos comparar adjetivos com adjetivos, verbos com verbos, substantivos com substantivos; é como colocar somente maçãs nos pratos de uma balança, em vez de maçãs e bananas. Pense que a memória do leitor só vai precisar abrir uma única caixa (a dos verbos, por exemplo), em vez de duas ou três. Para reforçar tudo isso, deixemos falar mais alguns exemplos:

  • Art. 23. É competência comum da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios:
    I - zelar pela guarda da Constituição, das leis e das instituições democráticas e conservar o patrimônio público;
    II - cuidar da saúde e da assistência pública, da proteção e da garantia das pessoas portadoras de deficiência;
    III - a proteção dos documentos, das obras e de outros bens de valor histórico, artístico e cultural, dos monumentos, das paisagens naturais notáveis e dos sítios arqueológicos; [3]

  • III - proteger os documentos, as obras...

 

  • Quando morava em Paris, Carlos sofreu muito com o preconceito, a incompreensão e alguns colegas que lhe eram hostis.

  • Quando morava em Paris, Carlos sofreu muito com o preconceito, a incompreensão e a hostilidade de alguns colegas.

 

  • Ana tem um carro a gasolina e outro importado. [2]
    (este exemplo vai além da possibilidade de correção)

 

  • Os investimentos em educação possibilitaram a qualificação dos estudantes e empregos mais especializados.

  • Os investimentos em educação possibilitaram a qualificação dos estudantes e uma maior especialização dos empregos.

 

  • Deixou-se levar pela ambição, a moda e o clamor dos interessados.

  • Deixou-se levar pela ambição, pela moda e pelo clamor dos interessados.

 

  • A seleção brasileira jogou ontem contra o Equador.

  • A seleção brasileira jogou ontem contra a seleção equatoriana.

  • O Brasil jogou ontem contra o Equador.

  • A seleção brasileira jogou ontem contra o time do Equador.

 

  • Desejamos mudar o país, unindo pobres, ricos e a classe média em torno do mesmo ideal.

  • Desejamos mudar o país, unindo os pobres, os ricos e a classe média em torno do mesmo ideal.

  • Desejamos mudar o país, unindo pobres, ricos e classe média em torno do mesmo ideal.

 

  • Aquela instituição trabalha com as crianças e adolescentes da comunidade.

  • Aquela instituição trabalha com as crianças e os adolescentes da comunidade.

  • Aquela instituição trabalha com crianças e adolescentes da comunidade.

 

Também vale a pena frisar a importância de manter o paralelismo no uso dos artigos, como nos últimos dois exemplos. Além de recomendada pelos gramáticos, a repetição do artigo torna a frase mais encadeada e clara, e evita que o leitor tenha de "preencher lacunas" enquanto lê. Veja os exemplos abaixo:

 

  • Comprou os livros, a caneta, o caderno e tudo o mais de que necessitava. [4]

 

  • Visitou a Áustria, a Hungria, a Rússia. [4]

 

Ficou mais claro, não? Nos próximos artigos vamos retomar alguns aspectos do paralelismo, mas o que está aqui já é bastante para você melhorar muito a sua escrita! Comece hoje mesmo, por exemplo, no próximo e-mail que for mandar!

 

Para encerrar sem ser acusado de ser rígido como um gramático de 90 anos, gostaria de apresentar a outra face da moeda, a que não é tão carrancuda. Quando dominamos nosso estilo (e só aí), podemos ser mais flexíveis e ir além das regras para criar imagens fortes e expressivas, comunicando muito mais do que a frase em si apresenta. Veja como Machado de Assis e Caetano Veloso souberam usar bem (e intencionalmente!) a quebra de paralelismo:

 

  • Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis; nada menos. [5]

 

  • Gastei trinta dias para ir do Rocio Grande ao coração de Marcela. [6]

 

  • Antes cair das nuvens, que de um terceiro andar. [7]

 

  • Eu podia mesmo contar-lhe a minha vida inteira, [...] mas para isso era preciso tempo, ânimo e papel. [8]

 

  • Encontrei num trem da Central um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu. [9]

 

  • Onde queres revólver, sou coqueiro
    E onde queres dinheiro, sou paixão
    Onde queres descanso, sou desejo
    E onde sou só desejo, queres não [10]

 

Agora quero saber de você! Como você alteraria as "frases" das imagens deste artigo? Já viu coisas parecidas por aí? Esceva nos comentários algum exemplo que você observou recentemente (aposto que agora eles vão começar a pular na sua frente).

 

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Por hoje é só (e já foi muito)!

 

 

Referências:

 

[1] Exemplo retirado de S. Pinker, Guia de escrita: Como conceber um texto com clareza, precisão e elegância. São Paulo: Contexto, 2016, p. 123.

 

[2] Exemplo retirado das notas de aula do curso Preparação e Revisão, ministrado pela profa. Ibraíma Dafonte na Universidade do Livro (Editora Unesp).

 

[3] Ibidem, o erro não está no original da constituição.

 

[4] Exemplo retirado de C. Nougué, Suma gramatical da língua portuguesa: Gramática geral e avançada. São Paulo: É Realizações, 2015, pp. 301-2.

 

[5] M. de Assis, "Capítulo 17 - Do trapézio e outras coisas". In: Idem, Memórias póstumas de Brás Cubas. Rio de Janeiro: Ediouro, 1996, p. 35. (Coleção Pestígio).

 

[6] Ibidem, "Capítulo 15 - Marcela", p. 33.

 

[7] Ibidem, "Capítulo 119 - Parêntesis", p. 113.

 

[8] Idem, "O enfermeiro". In: Idem, 50 contos de Machado de Assis. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 318.

 

[9] Idem, "Capítulo 1 - Do título". In: Idem, Dom Casmurro.

 

[10] C. Veloso, O quereres.

     

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