Uma pequena reflexão pessoal...

Por que revisar?

“O homem não é como os animais, a que bastam o conhecimento sensitivo e uma intercomunicação por gestos e por sons, tudo isso com que atendem ao aqui e agora. Por sua mesma natureza intelectual e social, ele abstrai-se do aqui e agora e preocupa-se também com o distante e com o futuro. Pois foi precisamente por isso [...] que ele inventou e desenvolveu a escrita.”
Carlos Nougué

 

        Sob o aspecto, digamos, profissional, ter contato com a riqueza que nos trouxe até aqui, ou — contentando-me já com pouco — simplesmente usar bem o próprio idioma — coisa que hoje é artigo de luxo —, pode demonstrar que um profissional é um ser humano, não apenas um técnico. Um advogado, um engenheiro, um marqueteiro, um economista ou um consultor revelam não ser meros técnicos em suas áreas quando deixam transparecer no trabalho quotidiano uma faísca de elevação pessoal, uma sombra de cultura que vá além do que foi estudado na universidade, um leve gostinho de que se preocupam com mais do que apenas lucrar e conseguir mais clientes. Fechados que somos, achamos que o aqui e agora são superiores a tudo o que veio antes, e cremos firmemente que não precisamos sair do que é mais imediato e palatável.

        Uma enorme parcela dos brasileiros, porém, não escreve bem e comete diariamente erros de português nas atividades mais simples (e-mails, postagens nas redes sociais, anúncios, artigos jornalísticos, livros, etc.). A quase totalidade não se dá conta desta lastimável situação, principalmente porque os próprios leitores não se dão conta de estar em contato com erros tão grosseiros quanto evitáveis. Essas pessoas costumam achar que o cenário linguístico brasileiro anda muito bem e, quando percebem que algo vai mal, normalmente não se incluem entre os propagadores dos maus hábitos da escrita. O problema são os outros. Desta forma, pouquíssimos são os que põem a mão na massa e decidem instruir-se depois de ter saído da escola.

        Mas a boa escrita é um valor em si, um tesouro oculto e mais do que esquecido. Conhecer a própria língua é o primeiro degrau para adquirir uma cultura sólida, no sentido original da palavra cultura (de cultivar, seja a nós mesmos, seja a algo que fazemos), e isto comprova-o toda a tradição educacional da civilização ocidental. Sem uma boa educação gramatical, afastamo-nos da nossa própria história e ficamos presos numa poça d’água (enlameada) que esconde atrás de si a vastidão de um oceano. A única coisa que pode elevar um homem para além de seu horizonte (espacial e temporal) mais imediato é o acesso à alta cultura, que começa, como sempre foi, no conhecimento da própria língua. Estamos presos numa faixa temporal de não mais que algumas décadas, incapazes de conversar com os nossos compatriotas que aqui viveram, por exemplo, há pouco mais de cem anos.

        Além disso, melhorar a própria escrita é servir de modelo a outros. Como numa espiral ascendente, quanto mais lemos coisas corretas mais passamos a escrever bem, e assim, com os anos, a língua portuguesa pode ir-se aproximando imensamente das raízes que tão bem a formaram e alimentaram, e o que vemos no nosso dia a dia, de sombra fraca e deformada de um passado mais digno, pode voltar a ser uma língua pujante, bela e frutífera.